domingo, 29 de novembro de 2009

Casais de bem

"Julie & Julia" é um filme leve, divertido, despretensioso e que cumpre o que promete. Além de mais um show de Meryl Streep, cujo nome redunda em boa interpretação (é a melhor atriz americana dos útlimos 50 anos!), o filme é uma celebração à vida. E o mais engraçado é que, mesmo não sendo um melodrama ou romancezinho hollywoodiano, ao contrário de todos os filmes das últimas décadas, nele todos os casais se amam, se dão bem, vivem suas histórias de amor: não há divórcios nem adultérios.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Série "Barbeiros"

Barbeiros I, 1996
Barbeiros II, 1996

Barbeiros III, 1996


Barbeiros IV, 1996



Barbeiros V, 1996




Barbeiros VII, 1996





Barbeiros VIII, 1996






Barbeiros IX, 1996








Barbeiros X, 1996







Barbeiros XI, 1996










Barbeiros XII, 2001









Jerusalém, 2009











Cairo, 2007













terça-feira, 17 de novembro de 2009

Hai Kai

Quando
a mente
quente
funde no banheiro
A poesia
fria
brota do chuveiro

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Espeto ao contrário

Vivo
ser
espetinho de churrasco
carne esquartejada
atravessada por espeto
enroscada em farinhas
dissimulação do corte
e sabor
Espeto ao contrário,
sem consciência,
cânion despelado,
dobradinho, úrico
massa pobre
surpresa nobre
de peça real
fazendo a coorte
da faca ciente do meu fim
Amar
é devorar em cubos
2008

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A descoberta de outra América

Assistir à "A descoberta das Américas" é ter o privilégio de participar daqueles momentos raros em que o milagre teatral acontece, surge da simples mas difícil tríade: ator-espaço-público. Falar da genialidade de mais esse texto de Dario Fo é redundância. Difícil é encontrar um ator à altura de dar conta, com sua voz e corpo, e sozinho em cena desse monólogo, de recriar todo o universo de um épico - narrador e personagens. Apesar dos parcos recursos do espaço em que a peça é apresentada no Espaço Caixa Cultural em São Paulo (um antigo saguão de banco e sobre um simples tablado de madeira, com luz geral), o ator Julio Adrião não precisa de nenhum outro recurso que não sejam a sua voz e os seus gestos para, através de onomatopéias, gramelôs e vozes contar a sua história como faziam os bufões na Idade Média. Ele é o cenário, ele é o figurino, ele é a iluminação e a sonoplastia, ele é o giullare carioca, ele é Ator com letra maiúscula. Pena que a curta temporada deste espetáculo que tem percorrido o mundo há quatro anos só vá até o dia 1/11. Quem for, verá!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Fado do cabide

(letra para um fado)

Vivo dos luares que guardei
nas lembranças do amor que outrora tive
É desse mal a dor que agora vivo
e do sal que sabe às bocas que beijei

Vivo no presente resgatado
o passado que de tanta imagem sei
amores de lembranças tricotadas
tearam-se entre as notas deste fado

São amores que resistem pendurados
em cabides numa vara sem razão
canastra empoeirada de saudade
vestes de um armário bem trancado

A porta do armário que se abre
Perfuma com seu mofo o ambiente
Fujo para trás, finjo vestir
um traje que já não me cabe

@Copyright by A. Carrico. Todos os direitos reservados.

domingo, 4 de outubro de 2009

Venha a nós, Piccolino

(imagem extraída de roselysilveira.blogspot.com)

Venha a nós, Piccolino, para abrandares
essa avalanche de pesares
que assola a Terra,
em guerra!
Abrandai a cobiça desses animais,
criaturas egoístas
que já não se reconhecem iguais.
Lavai no sangue de suas chagas
a ação mal intencionada
dos que se apropriam das divinas criações.
Fazei de teus olhos faróis, vulcão
de irradiação fraterna,
aquecendo a caverna
de todo mau coração.
Amarrai no laço de teu roto cordão
as aflições, angústias,
desditas e desterros,
perpetradas pelos erros
dos que se esquecem de amar.
Salvai aqueles que já não têm voz prá berrar.
Acendei a chama de sua fogueira ecumênica,
que comunicou através da liberdade
a paz, a caridade,
aos povos dos quatro cantos em irmandade.
E com a luz da irmã sua,
Clara santa, estrela lua,
padroeira da televisão,
clareai os caminhos dos
que não querem ver
porque esquecem quem são.
Soprai, Poverello, com a força do vento
a fobia dos que correm contra o Tempo,
dos que não se dão as mãos.
Balançai, com o ar de teus braços abertos,
a certeza dos doutores,
a consciência dos espertos.
Príncipe da Paz,
banhai-nos na água,
que com sua doce voz, suave e clara,
refresca o dia,
e a sede nos sacia.
E limpando-nos dos desamores,
perfumai-nos de suas flores, relembrai-nos seus cheiros.
Adonai-vos de nossos destemperos,
livrai as imensidades,
serenai as ansiedades.
Cantai na língua dos pássaros,
em teu banjo,
a melodia dos arcanjos.
Trazei tua santa insatisfação
para que mudemos o mundo em terno,
e sosseguemos este inferno
numa linda canção.
Ganhai nossas ruas de novo, cavaleiro do povo,
hasteando tua bandeira de beleza.
Volta agora à Terra e em romaria,
onde houver tristeza, leve tua alegria,
velho Chico, jogral e brincante,
senhor dos presépios e dos mamulengos,
dos quatro elementos,
enterrai os tormentos na Paz e no Bem.
Amém.
(texto escrito em 2003)


À benção, Alter Christo! Salve teu dia 04 de outubro!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio de Janeiro, meu amor

Durante muito tempo ficou feio falar bem do Brasil, elogiar as melhoras do país pegava mal. Herança dos anos da mentira, das ditaduras, desconfiança por uma classe corrupta de instituições decadentes e de políticos corruptos. Isso impede muitas vezes as pessoas de elogiarem aquilo que vem melhorando. Viajei recentemente para fora e nunca na vida pensei que veria tanta gente se reportar a mim como brasileiro da maneira como fizeram; nunca vi tantas manchetes internacionais positivas sobre o país. Acho que a escolha da cidade mais bonita do mundo, o Rio de Janeiro, para finalmente sediar uma Olímpiada é apenas reflexo disso, de que o Brasil ocupa uma posição de destaque dentro da nova ordem mundial (não apenas economica e política mas também simbolicamente). E isso pega mal para as hordas de urubus que insistem em apenas alardear nossas mazelas e fechar os olhos para o nosso desenvolvimento. É preciso ver que muita coisa começa a dar certo. Talvez agora será a vez do Brasil, como realidade original que é, dizer algo de original ao mundo. E fico feliz porque nunca concordei com a fabricação de uma capital artificial para o país, Brasília, apesar de adorar a arte de Niemeyer (o desvio da capital foi um dos graves equívocos de JK, no meu ponto de vista). Para o mundo o Rio sempre foi e continua sendo a capital desta República e para nós, se não o é de direito, segue sendo nossa capital espiritual. Em que pese São Paulo ser a locomotiva destas terras brasilis, São Sebastião do Rio de Janeiro é a síntese da nossa alma, nosso cartão de visitas. Minha querida Rio de Janeiro, esta é a sua chance de mostrar que você não é feita só de violência e corrupção.

sábado, 8 de agosto de 2009

A culpa não é do espelho se a cara é torta

A política brasileira ainda não saiu do século XVI. Desde a nossa colonização, ou invasão, pelos portugueses, quando foram designadas as capitanias hereditárias, cada mandatário de cargo público se sente no direito de fazer o que bem quiser. No primeiro documento oficial que nos cita como entidade territorial, Pero Vaz de Caminha pede um emprego para o seu cunhado. Aliás, segundo Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, o cunhadismo era uma prática cultural comum entre os povos indígenas, aproveitada e ratificada pelos colonizadores que a transformaram em troca de favores. Se por um lado a democracia consolidou-se desde o fim da última ditadura, por outro, o paternalismo é o que assemelha nossa república aos regimes autoritários.
Um caso que espelha claramente a postura de coronel dos políticos brasileiros é o recente bate-boca entre eminentes senadores, na última segunda-feira. Pedro Simon usou da tribuna do Senado para defender o afastamento de José Sarney; Renan Calheiros declarou que, apesar daquele sermão, em particular, seu nobre colega gaúcho acabara de manifestar solidariedade ao político maranhense. Simon aproveitou para rememorar um episódio de 17 anos quando, segundo suas palavras, na ocasião do impeachment de Collor, Renan teria apoiado seu ex-padrinho e conterrâneo para mudar de postura só depois da certeza da derrocada collorida. Collor tomou a palavra e, visivelmente abalado, deflagrou uma série de vitupérios contra Simon, numa linguagem próxima dos discursos da época de Getúlio Vargas e Adhemar de Barros. Collor, filho de um senador que matou um desafeto político em plenário, à queima roupa, e neto de um ministro getulista, discursou como se ainda fosse um manda-chuva, com um semblante cerrado de ditador tentando intimidar o tribuno que outrora tanta dor de cabeça já lhe causou; a ele e a Renan. Tanto Fernando quanto Calheiros renunciaram para não serem expulsos. Um da presidência da República – a mesma já ocupada por Sarney – por ter instalado uma quadrilha dentro do Planalto. O outro, renunciou da presidência dessa mesma casa, o Senado, por pagar a pensão da ex-amante com dinheiro público. Algumas acusações de falcatruas parecidas com essas, pautadas em claros indícios, pesam sobre a cabeça de Sarney.
De todo o circo promovido na reabertura das sessões do Senado, fica claro o tom do discurso dos senadores Renan e Collor. Falam como donatários de capitanias, como se estivessem acima da média do povo. Nenhum se coloca como representante legal da população; nenhum sustenta na voz o mandato em prol da coisa pública. Querem antes defender as suas “honras” coronelescas, as suas carreiras políticas, os seus patrimônios, os seus mandatos repetidos ad infinitum. Afinal, no Brasil, a coisa pública é terra de ninguém, basta ver o estado dos nossos orelhões e praças públicas. Basta ver as pichações e depredações dos nossos monumentos. Nesta terra, político é aquele que se locupleta.
Em 1835, o dramaturgo Nicolai Gogol, denunciando a corrupção da Rússia da sua época, escreveu na peça “O inspetor Geral”: “A culpa não é do espelho se a cara é torta”. Tanto Collor quanto Renan culpam a imprensa pelo desejo da opinião pública de que Sarney, no mínimo, renuncie à presidência do Senado. Expiam nos jornalistas seus próprios pecados. Mas a imprensa brasileira é, e sempre foi, apenas o espelho dos fatos. Ela não tem culpa se a nossa Câmara Alta tem a cara torta.

sábado, 18 de julho de 2009

Série As Cidades - Paris: a felicidade se compra

A "velha dama" vista do Arco do Triunfo, 1998
Rua de Montmartre, 1999

Ponte Alexandre III, 2003


Fachada na Praça da Bastilha, 2007







Se eu fosse escrever um livro de auto-ajuda, diria que a felicidade se compra e o preço não é tão caro para quem tem emprego fixo e se esforça para economizar por um objetivo. A receita é simples: pegue uma passagem aérea para Paris, junte-a à reserva de um hotelzinho barato mas com alguma graça num bairro charmoso e depois de instalar-se na Cidade Luz, compre uma baguette numa boulangerie, umas fatias de queijo, uma garrafinha pequena de vinho, pegue o primeiro livro que estiver numa banca promocional de porta de livraria e sente-se sob uma fresta de sol num banco do Parque de Luxemburgo, ou então, coloque-se naquelas mesinhas minúsculas que ficam nas calçadas dos cafés e permita-se ver a vida passar na elegância espontânea das mulheres, os casacos, os cachorros; permita-se sentir os perfumes, ouvir a melodia do francês bem falado, os acordeonistas que tocam Piaf na esquina, os sinos das igrejas, enquanto saboreia um café-creme com croissant, ou então, escolha uma mesa num bistrô que tem menu escrito na lousa no Quartier Latin e peça uma taça de champagne, um consomé com croutons de entrada e um crepe do sabor que mais gosta, ou então, embale-se pelo som de arpejo mecânico que sai de dentro do carrossel que está de frente para a Torre enquanto torcicola o pescoço admirando-a ao saborear um waffel de Nuttela. Se ainda assim não curar sua deprê, perca-se na alternância entre vielas e boulevards do Marais, da Ilha Saint-Louis, de Saint-German-des-Prés e, quando der vontade, entre em algum museu como o Beaubourg, o d’Orsay, o Orangerie, o Museu de Cluny, o Museu Rodin... passe um dia inteiro no Louvre sem se frustrar porque uma vida seria pouco para conhecê-lo. Suba até a colina de Montmartre para ver o vinhedo que ainda resta, os pintores nas pracinhas, o Espaço Salvador Dalì, mas faça à pé como Amélie Poulain e descubra a melhor vista do município. Reze, mas reze muito, mesmo que você seja ateu, dentro da arquitetura de Notre Dame, da Madeleine, do Sacré Coeur, na igreja de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, de Saint Gervais, da Sainte Chapelle (já vi muita gente se converter diante de seus vitrais), de Saint-Sulpice, acenda uma vela e agradeça a Deus por ter iluminado o homem a construir uma cidade tão bonita. Atravesse o Arco do Triunfo, desça os Champs-Élysées até o Petit Trianon como se cruzasse com a Catherine Deneuve ou Lênin, Proust ou Beckett, Jim Morrison ou Carla Bruni, e só então cruze a esplendorosa ponte que o czar Alexandre III doou para sua cidade preferida, coroando o rio Sena. Se caminhar em linha reta você chega na Place de la Concorde e conhece o obelisco que Napoleão confiscou de Luxor. Mais adiante, atravessando as fontes do Jardim das Tuileries, contorna o Louvre, dobra à esquerda e dá de cara com a Ópera Garnier. Recomendo entrar, mesmo que detestar o bel canto: só por admirar o teatro já vale a visita. Atrás deste palácio da Alta Cultura estão alguns outros, da Alta Costura. Mas se a sua carteira for do jeito da minha, há uma solução: as Galerias Lafayette (não sinta culpa em fazer umas comprinhas).
Se você for mesmo um ser humano, qualquer uma dessas atividades vai te deixar muito feliz. Se deixar-se envolver pela atmosfera da cidade, tudo o que você fizer será um prazer, mesmo aquele lerê cheio de turistas ou qualquer outro programa de índio, até mesmo algum evento que der errado. As decepções em Paris são suas melhores surpresas.